Transar é maneiro
(não deixem que você pense o contrário)
Sempre gostei de putaria. Foram anos entendendo as regras de ser “menina”. Uma obediência a sei lá quem, uma espera de Godot (coitada), mas lembro da minha cabeça pensar “Isso é maneiro, hein” quando eu via filmes com cenas eróticas.
No carnaval, meu irmão do meio (sou caçula de 2, uia) adorávamos ver o Otávio Mesquita na porta dos bailes de carnaval. O baile gay do Scala talvez tenha sido a primeira vez que tenha visto uma drag queen, e também uma pessoa trans, que na época a gente falava “transformista". Com certeza Otávio se equivocava (não quero rever no youtube), mas eu amava aquilo. Era tão diferente da minha vidinha normativa tijucana, alguma coisa ali tinha cheiro de sexo, risos.
Tem muita gente que não transa. Soube outro dia e fiquei meio chocada. Mentira, não soube outro dia. Tô sabendo em termos geracionais. Assim, nada contra. Quer dizer, um pouco. Acho transar nosso último contato com o animalesco. Não tem vício em celular que impeça uma buceta latejante de ir fazer o que deseja. Isso é muito sério. Mas o vício em celular me faz esquecer palavras, o que eu ia fazer ou pra quem mesmo que eu preciso mandar uma mensagem? Aliás, qual mensagem? Afff.
Há pessoas assexuais e para essas pessoas, digo meu “muito que bem", aceno de longe e entendo que a vida é diversa. Pipipipópópó. Belezma. Mas há pessoas que não são assexuadas e não transam. Entendo e respeito todas as fases: “Já fiz muito sexo sem sentido, agora guardo minha energia pra algo que valha". Ok, done that, been there Mas talvez a idade tenha me trazido uma urgência (não confundir com ansiedade), que acho melhor fazer. Mesmo que não tenha sentido, mesmo que eu gaste minha energia. Energia é pra gastar com o quê, afinal? Eu curto transar, Brasyl.
Demorei porque era muito tabu envolvido nesse tema, ainda mais pra mocinhas de família normativas. Meudeus, que ódio dessa palavra. MOCINHA. Quando você ficava menstruada, por exemplo, falavam “Ela ficou mocinha". Juro, eu poderia vomitar.
Existem motivos sérios para não se transar. Traumas e outras tristezas. Mas como pessoa que tem quíron na casa 8, transar me cura. Quíron é um asteroide que simboliza uma ferida. Mas é essa mesma ferida que vai te curar. Quíron é chamado de “o curador ferido". A casa 8 é palco de temas como morte e sexualidade. (Y otras cositas más, mas agora quero falar mais disso: morte & sexo). Tive histórias na vida um pouco traumatizantes sobre esses 2 temas, mas sem saber do tal quíron (fui aprender sobre o bicho lá pra 2012 quando fiz curso de astrologia mesmo), sempre percebi que fugir dos temas, me encalacrava mais e mais. Entendi, intuí, psicografei, inventei, aceitei que transar e falar sobre morte iriam me curar. Nem todo mundo lida com trauma assim, enfrentando. Essa posição de fato me favorece pra renascer das cinzas, coisa e tal, tal e coisa.
Eu adoro pensar quem transa. Numa festa, numa restaurante, na família. Não penso com erotismo, apesar de ser um pouco voyeuse sim. Mas nessa hora penso mais como uma pessoa que trabalha no Censo e quer entender as dinâmicas daquela casa. Não costumo perguntar “E aí, tu transa?” pra desconhecidos, mas quando o assunto chega na carne, fico contente porque adoro ouvir relatos e se me sentir à vontade, compartilho algum meu também.
Algumas amizades relatam preguiça dos aplicativos de encontros, eu imagino. Já passamos muito tempo no celular, para ali também ser o local do encontro da carne. Ali é chatice, vício, dopamina, não vai ser dali que vai sair a carne. Quer dizer, às vezes sai, claro. A carne atua de forma selvagem, não há quem domine. Fico feliz com quem consegue achar ali, mas é raro, bem sabemos. Se você sente que algo domina a sua carne, cuidado. Ela é para ser livre, selvagem e mais pra alucinada do que regulada. Normalizada. Todo cuidado. Mesmo! Amigues também relatam sexos ruins nos aplicativos. Lamento demais. Sexo ruim é triste. Há excesso de rivotril hoje em dia. Eu fui tomar rivotril dentro de um avião, com medo dele cair, aos 31 anos, pela 1x na vida. Sabe? Conheço gente com 22 anos que toma DOIS Zolpidem por noite e mesmo assim não dorme. Significa.
Tá todo mundo meio mal. Todo mundo doente. E pra mim, o não transar, só sublinha esse mal estar. Essa aceitação da máquina, da inteligência (e da burrice também) artificial, do automatismo existencial. Não transar é deixar com que eles ganhem. Que eles? O capitalismo, o trilionário, os bilionários, A META a Nestlé (que é dona da água do mundo, VAISEFUDER), sei lá, essa gente toda asquerosa. Transar é ganhar dessa gente. Transar é lembrar que a gente ainda é animal, que há certas coisas que máquina nenhuma vai conseguir reproduzir. Dizem que no futuro sim, que vai rolar de ter orgasmo assim assim assado com tal máquina. Devo experimentar? Talvez, risos. Mas o que é a pele, minha gente? A pele é a pele e ninguém ganha de pele.
Fleabag. Completou 10 anos. Genial.


Papai do céu, me dá um namorado, lindo, fiel, gentil e tarado... Rita 💛⚡🐈
Muito bom. Só uma observação: quem não sente atração sexual é assexual, não assexuado