Quantas estrelinhas merece minha música?
(estava devendo um texto para vocês, por conta do meu último post. acho que misturei 2 assuntos. certamente meu texto sobre Love is Blind fará mais sucesso, risos. aguardem mais 2 meses? choros!)
Meu nome é Letícia, me conhecem como Letrux e eu tenho 8 discos lançados. O primeiro foi com minha banda de rock na Tijuca, bairro da zona norte do Rio, onde nasci e cresci. A banda chamava Letícios, parece besteira (e pode ser também) mas pra mim era importante esse nome porque todas as músicas eram minhas. Era feminismo de 2005. Não está nas plataformas, não é o caso. Foi minha primeira experimentação sonora. Depois, lancei 3 discos como Letuce. Era parceira do Lucas nos dois primeiros discos e no último, Estilhaça, já não éramos um casal. Lucas foi um homem hétero bem legal comigo, me enalteceu, me elogiou, disse que eu deveria investir na música pois eu era muito boa. Fiz curso de percepção musical, aulas de canto. Eu já tinha estudado violão e piano, mas com ele, sem dúvida, a vida diária era música & música. Lucas pagou meu segundo processo de psicanálise e sou muito grata a ele. Agora ele está se formando em psicologia, ele sempre amou esse assunto, e me fez amar ainda mais. Tivemos problemas e questões, quem não, mas somos amigos hoje em dia. Fico feliz com isso pois ele fez parte de uma fase muito criativa e de descoberta da minha vida. Passei meu reveillon com ele, sua namorada, eu e meus romances e minha filha. Olha que glória a vida de vez em quando! Rá! Quando Letuce acabou, dizem por aí - e eu não sabia disso, que as pessoas se questionaram qual seria meu futuro, risos. Porque Lucas era o profissional e eu era uma doidinha oriunda do teatro, brincando de música. Não fiquei chocada em saber disso, eu sempre causei polêmica na vida. É meu urano na casa 3, é eu ter 1.85, é alguma coisa cármica. Não serei a queridinha (embora possa ser), não serei A MORNA (embora também possa ser). Ser alta faz com que eu nunca passe batida. É um fato, e eu lido com isso. As pessoas têm julgamentos fortíssimos sobre mim. Com amor ou com ódio. A escola foi um ensaio do que seria a vida. Eu sofria MUITO bullying (por tudo: altura, magreza, cabelo, nariz, bunda, sexualidade - que eu nem sabia qual era, risos), mas ao mesmo tempo era adorada por outras pessoas que ficavam à minha volta no recreio “imita a professora tal, imita o coordenador, faz aquela brincadeira de adivinhar o número, canta aquela versão que você fez do abecedário da Xuxa de putaria”, e eu de fato imitava e arrasava. Até votaram em mim pra ser representante de turma. Como era possível? De um lado, gente me odiando e de outro, votando em mim. Não entendia mas vivia. Hoje, 7 anos de análise com Sérgio (flores pra Sergio!), aceito e entendo que esse é meu destino. As pessoas vão me amar ou odiar. A questão é como eu dou destino a isso. A esse amor e a esse ódio.
Quando inventei essa nova persona, Letrux (apelido dado por meu amigo irmão Arthur Braganti, que co-produziu Climão e Prantos, e é das mentes mais brilhantes que conheço), eu só queria continuar fazendo música. Havia entendido que era a forma que eu me entendia no mundo: observando, elaborando, sendo antena e criando palavra com melodia. Parece uma coisa meio macabéa mas eu não pensava muito no ofício. Pois é tão entranhado a mim que não consigo ficar em debates internos sobre minha vocação. Simplesmente é isso que sei fazer, é isso que quero fazer, é isso que farei. Ponto final sem reticências jamais pra isso.
Pausa: dei aula de redação num curso de vestibular para pessoas sem condição de pagar cursinho. Meu primo dava aula de Química lá e perguntou se eu queria. 2006, isso. Eu chegava de skate, as pessoas ficavam impressionadas com aquilo. (Sempre o desvio comigo). Havia gente bem humilde, e de alguma forma, eu conseguia fazer até brincadeiras surrealistas pra todo mundo relaxar antes da gente entrar em partes mais normativas, até um pouco chatinhas de regras gramaticais etc. No final do ano, eles compraram uma caixa de bombom pra mim, todos assinaram um cartão, e um aluno escreveu algo que nunca esqueci: “obrigada por compreender os símbolos e passar pra gente”. Na época, não chorei, mas fiquei emocionada. Mês passado, ao contar pra Sérgio, chorei. Porque é isso mesmo. Meu destino, minha vocação, é essa: a compreensão dos símbolos e a tentativa, o desejo, em passar adiante.
Nunca tive grandes pretensões na vida, meu leão está na casa 12 que se você for estudar é uma vida mais de bastidores. Mas meu sol em capri está na casa 5, que é a casa original de leão. Muitas contradições. Quero e não quero chamar atenção. Quero e não quero ser mais reconhecida. Cheguei num lugar curioso da vida. Vivo da arte. Milagre no tempo atual. Trabalho pra dedéu: escrevo, canto, faço show, locução, sou dj. Saga do mundo capitalista. Mas não posso negar que minha casa 10 em gêmeos (10 é a casa do trabalho, gêmeos é multi), gosta disso. Queria ganhar mais? Eu, você e toda torcida do ________ (qual time você pensa quando fala isso?). Mas eu gosto da minha vida. Se não rolar de ser mais reconhecida, tá tudo bem pra mim. Não me considero gênia incompreendida. Não acho que a galera popular não sacou minha música, nada disso. Não sou uma pessoa ingênua nesse sentido. O sistema é mal, mas minha turma é legal, viver é foda, morrer é difícil. A máquina não funciona só com talento, embora ele seja necessário. Não sou neponada, não estudei na escola da zona sul, não frequentei o burburinho, até hoje não frequento. Me chamam pra muita coisa, agora até pararam um pouco, é que eu realmente gosto muito de dormir.
Acho a vida uma alucinação completa, sermos a única espécie que paga aluguel para morar no planeta realmente me deixa chateada, então eu aguardo diariamente a hora de dormir pelo desligamento quase total do corpo e da mente. Acredito muito que morrer vai ser assim. Um sonho. Tomara que seja. Mas sim, eu deveria sair mais, fazer o famoso networking, mas há coisas que me incomodam, e aí prefiro ser esquisita e mais na minha e quem realmente quiser, se aproxima. Crio meus filtros. Melhor.
Uma coisa da escola que eu odiava era teste e prova. Lembro de gente bem mais burra que eu tirando 10 porque decorou ou colou. Aquele número estampado no alto em vermelho. Que pesadelo. Um monte de gente burra tirando 9, que vergonha. A metodologia era antiga, alguns professores batiam cartão (e não os julgo, ganham pouco, professor tinha que ser milionário, na moral. Ensinar é algo muito precioso). Mas sem estímulo, entendo a preguiça. Respeito. Não pago as contas deles, como julgar? Uma ou outra professora era miragem, oásis, figuras que viram minha aura laranja soltar alguma faísca e de forma bem natural me guiavam ao que é minha vida hoje em dia. Cleide, professora de teatro, me chamou para fazer aula depois do horário da escola. Mudança radical de dinâmica de vida. Ana Cristina, professora de música, perguntou se eu não queria estudar piano na casa dela depois das aulas. Essa não foi mudança radical pois eu ainda não estava preparada para solidão do piano, mas sem dúvida os 3 anos de estudo da época me valem de algo até hoje. E Dílson, professor de redação que fazia elogios que hoje entendo como ele querendo me agradar (já que ele foi o ÚNICO professor que veio falar sobre bullying comigo). De alguma maneira, os 3 temas da minha vida estavam lá e me mostraram que eu conseguiria sair daquela vidinha escolar banal. A vida seria interessante depois. Não sei como mas nortearam a jornada.
Lembro que fiz um trato comigo mesma: Qual é a média? 7? OK! Vou estudar, decorar e colar para 7. Essa não é minha vida, esse lugar não é meu, essas pessoas, esses ensinos. Nada daquilo me pertencia, nada daquela gente normativa me inspirava a absolutamente nada. Então estudar pra ser 10 estava fora de cogitação. Eu gostava de ir para o curo de inglês, ficar vendo acústico MTV na sala de espera, ali dentro o mundo era diferente porque era outra língua e realmente parecia uma aula pra se aprender. Era curioso, não precisava de nota, era outra viagem. Tinha exercícios, claro, mas não era sobre 7 ou 10 no final de tudo. Terminei inglês, entrei logo no espanhol, onde ganhei o primeiro prêmio da minha vida: Mejor Alumna. Jajajaja! Enquanto fazia espanhol, também fiz francês, mas com a mãe professora dessa língua, nunca senti necessidade de me formar, que absurdo. Mas minha mãe e eu temos essa prática: quando sinto que estou enferrujando, só falamos em francês. É divertido e eu ainda consigo distanciar minha mãe. Ela não é só minha mãe. É uma mulher com interesses diferentes, acho o máximo. Eu não queria nunca ficar em recuperação na escola. Estar mais tempo com aquela gente era impensável. Então fazia o que tinha que ser feito e assim passava de ano sem nunca ir pra recuperação.
CORTA PARA
Quando Letuce começou a lançar discos, as resenhas e críticas ainda saíam no jornal, xóvens. Uma ou outra coisa num site, mas ainda era caderno de cultura mesmo. Lembro que um senhor deu poucas estrelas pro segundo disco de Letuce, Manja Perene. ( ) importante pra abrir. Durante brevíssimo tempo da vida convivi com uns boys da zona sul, acho que eles produziram um show que Letuce fez no CCBB, algo assim. Tínhamos um amigo em comum, mas esse é artista, doidão, se formou em música, ele era o desvio daquele grupo, enfim, tudo isso pra dizer que não sei porque Lucas e eu contamos numa mesa de restaurante com essa gente da zona sul que o novo disco de Letuce seria MANJA PERENE. Um deles ficou horrorizado com o nome, o outro disse que não gostava, sem eu nem ter perguntado. Um falou em períneo, risos. (A gente vê o que a gente quer, mais risos). Felizmente essa gente não faz mais parte da minha vida embora eles ainda tenham poder em coisas culturais no Rio. Claro! Herdeiros. Fecho ( ).
Eu não queria ser artista quando era criança, mas eu era fascinada por essas figuras meio atormentadas, meio fascinantes, elas pareciam mais estranhas e lindas do que as pessoas que eu conhecia na minha vida normativa. Podia ser tudo uma ilusão? Claro! Mas isso também contém graça e sabor. “É a perfumaria”, como bem diz Arthur. Mesmo não querendo ser uma, não pensava que arte tinha nota. Achava que a arte era livre desse terror da escola. Também na parte do caderno cultural havia a sessão da crítica: Um bonequinho dormindo ou o bonequinho aplaudindo de pé. Lembro que às vezes eu concordava mas muitas vezes não. Vi filmes que o bonequinho dormia e eu lá, aos prantos de beleza com alguma cena maluca. Ou o contrário: bonequinho aplaudindo e eu numa sala de cinema (eu ia muito ao cinema) bocejando, um pouco constrangida e cheia de tédio. Não tinha regra.
Mas claro, há pessoas que se aprofundaram em se aprofundar. E eu reconheço isso. E quando o mergulho é nas fossas das Marianas (região marinha mais profunda do planeta Terra), eu realmente tiro o chapéu (e quiçá a roupa!), pra quem desenvolve uma linha, um parágrafo, pra quem busca contexto, histórico, psicológico, ao tentar analisar uma obra de arte. Há muita gente dizendo que a arte de agora é ARRAAM, rasa. Creio que isso pode ser dito da crítica também. Pelo menos a crítica que tem atenção. Sei que há gente inteligentíssima escrevendo aqui no substack e meus olhos são agraciados por palavras que não conhecia, frases formuladas de maneira quase como numa dança, queria muito que essas pessoas tivessem mais espaço. Mas o que temos, ARRAM, são homens brancos falando sobre minha música. Me dando nota. Teve um crítico que no final do seu texto (pobre) sobre meu último disco, tinha um parágrafo sobre ele. Uma espécie de minibiografia que o próprio autor escreveu na terceira pessoa e lá estava: “ Fulano acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.”
Fico pensando em John Berger, um crítico de arte inglês. A editora Fósforo me presenteou com o livro Modos de Ver, obra publicada em 1972, que originalmente era uma série da TV BBC. O livro é bem direcionado para pintura de forma geral, mas é possível fazer associações com qualquer arte. Fico imaginando se Berger tivesse que fazer um parágrafo sobre si próprio, se teria essa audácia em escrever o que o crítico brasileiro falou sobre si. É tão constrangedor. Além de tudo, há o tom de arte utilitária, que abomino. Meu trabalho reduzido à uma nota ou a algumas estrelinhas. Asco. Como se eu fosse um motorista de Uber ou entregador de ifood. Deixando de lado todo horror capitalista, compreendo que esses serviços utilitários possuem avaliações (nem sempre justas ou verdadeiras). Mas a arte não é um serviço, a arte não é utilitária. Meu trabalho sendo reduzido a estrelinhas é algo que me embrulha o estômago e me faz lembrar da escola. Da metodologia. Dos professores mal pagos mas tendo que nos “ensinar” alguma coisa. Sem nenhuma paixão, escreviam no quadro negro ou diziam frases pra gente anotar.
Eu sempre fui muito capturada por fogo. Ao sinal de qualquer faísca, presto atenção. Mas não havia nada, sequer uma chama ou um brilho no olho para que eu realmente me comovesse. Assim são os textos de crítica de música. Sou aberta e principalmente sou interessada em esmiuçares. Na correria da vida, consigo (com meu mapa astral) ter poder de síntese porque percebi que já perdi muito tempo em situações onde não valeu à pena ter me debruçado tanto. Mas guardo a síntese para as chatices velozes do capitalismo. Quando se trata de arte ou sentimentos, posso ser ultra prolixa e querer saber sempre mais. Espero mais. Entendo que os críticos também podem dizer isso “Esperava mais”. Risos. Mas daí ao teor com que escrevem isso, acho muito abaixo. Acho sem pesquisa, sem questionamento, não devem me ler, me saber, não entendem como eu cheguei naquele resumo. Acho lamentável.
Lembrei de uma música agora: “I never Said I was deep”, do Jarvis Cocker, da banda Pulp. Ainda tem isso. Quem nada onde não dá pé, volta e meia, também brinca no raso. A piscina é grande e brincar é estado tesânico constante para se estar viva. A gente circula, não tem regra de só ficar no fundo também. Digo isso porque há um fã/hater que semanalmente caga palavras pra cima de mim. Se trata de alguma pessoa com muitos problemas, sem dúvida. Cismou comigo num nível quase preocupante. Essa pessoa escreve em todas as redes sociais que as letras do meu último álbum caíram muito, que antes eu era profunda e agora as letras estão rasas, quase como de adolescente.
Paro pra pensar nas letras de Letrux em Noite de Climão e quase rio: “Cê mexeu demais comigo”, “Entra mas não fica à vontade”, “Já tive tudo com você, na minha cabeça com você”. Não há nada complexo ou profundo aqui. Interpretando, há. Querendo ver, há. Mas com tanta Fossa das Marianas na vida, cheguei numa espécie de literatura que tenta resumir. Não é o caso desse texto, risos. Me divirto na música assim. E apesar da seriedade fazer parte de mim, também sou Clowndia, me divertir é muito importante. Levo muito a sério a diversão. Se no hay, tô fora. Tenho fuzuês mentais enormes mas consigo criar uma frase melódica que resume algum caos amoroso ou coisa do gênero. As pessoas não gostarem de uma arte é real e eu respeito. Somos bilhões de seres humanos, ainda que algumas sensações sejam coletivas, há muitas experiências individuais, que alívio. Passamos por muitos anos de coletividade, o que foi importante para muitas lutas, mas sinto que agora precisamos nos entender de novo como indivíduos. O quanto eu fui atacada por feministas em 2019, quando postei fotos de um camarão que comi em Lisboa, vocês não fazem ideia. Eu poderia um dia fazer um texto sobre todos os breves """cancelamentos"""" que tive nas redes sociais. Sempre há violência. Eu sempre respondo porque tenho Xangô na cabeça, porque gosto de escrever, porque acredito no ser humano, não sei ao certo. Depois, eu embriono. Me recolho. Costuma ser assim, talvez mude, mas até aqui tenho esse padrão de reação. Sou feminista. Mas mulheres acharam que por eu comer camarão, eu não era feminista de verdade em 2019. Sabe, Brasil? Acredito que hoje em dia, muitas mulheres devem repensar o tipo de ataque que me fizeram. Antes da pandemia havia um surto de lutas coletivas, ninguém solta a mão de ninguém, que lindo. Mas essa mão agarrada na outra estava quase necrosando de tanto que apertava. Será que aí vale? Sei não, viu.
Não sei se esse texto tem pé nem cabeça. Estou num trem na Alemanha. Tentei escrever esse texto em outros lugares: no Rio, onde moro. Em Florianópolis, onde passei um mês filmando um longa metragem. Mas as circunstâncias não facilitavam o foco. Agora no trem, enquanto Yoko dorme e Katja lê o jornal, consegui algumas horas de foco. Ainda há muito mais a falar. Há gente que diz: “você é uma artista e artista não precisa se explicar”. Acho esse pensamento um pouco vago. Até porque não considero esse texto uma explicação. Inclusive, não há explicação para quase nada. Felizmente, esse é o grande barato da vida. Ainda bem que a maioria das pessoas que amei são mais filosóficas porque não é possível viver cheia de certezas. E dando notas e estrelinhas para obras de arte. Quando uma música me causa bocejo ou constrangimento, eu também posso investigar o porquê disso. E isso pode gerar um pensamento curioso. Ou então eu pulo a música, e sigo. Não gostar também é gostar, de alguma maneira. E isso é bem estranho e parece errado, mas hoje sinto isso. Amanhã, saberemos. Quando críticos gostaram de outros trabalhos meus, eu também sentia isso. Não exatamente isso porque isso é pensamento elaborado ao longo de anos de estudo e psicanálise. Mas algo já estava ali. Não me interessa a música dos campeões. Pódio ou lona, tudo é uma grande besteira. Enquanto vários colegas de profissão colocam na biografia do seu perfil do instagram: “Grammy nominated ou Vencedor do Grammy Latino”, a minha frase é direta: “Perdedora do Grammy Latino 2020”. Ser muito aplaudida ou muito vaiada não é o que vai me guiar na vida, jamais. Mas é o que parece que vai acontecer.
(a vida como ela)
Há 2 semanas participamos do maravilhoso programa Cultura Livre. E eles pedem para todo artista fazer uma música extra, não autoral. E eu fiz uma versão em português de “You Learn", da Alanis Morissette. Eu sempre gostei muito de versões. Porque tenho essa tara em língua. Fake Plastic Trees, do Radiohead, já virou Árvores falsas de plástico. Fiz também uma versão em português pra All Apologies do Nirvana. Eu tenho isso. Eu gosto disso.
Fiquei intrigada como as pessoas se ofenderam de um jeito tão bizarro. Foi quase pessoal. Houve gente batendo palma, porque assim é minha vida, como vocês acompanharam nesse texto. Me amam e me odeiam com força, aquela coisa. Mas eu fiquei bem impressionada como se ofenderam, não é que não gostaram, é que eu mexi em algo que não se pode mexer, aiquemedo. Me impressionou a quantidade de gente com amigues em comum escrevendo palavras de baixo calão pra mim. Gente postando stories anti homofobia, anti racismo e coisas assim. Gente que também é artista indo comentar merda pra mim.
Fico pensando se um dia Caetano ou PJ Harvey lançam uam versão na língua deles de alguma música muito famosa em italiano, digamos. Se eu não gostasse, iria eu nos comentário escrever merda? Ai, eu sinto calor de vergonha só de pensar. Mas claro, na vida, tenho prezado por elegância. Já briguei muito na rua. Tenho a voz calma e uma presença mais chapada, mas isso é muito trabalho. Eu posso ser muito colérica e o que eu já briguei no trânsito, na rua, com homem tarado, não daria conta de contar. Tenho prezado pela elegância num mundo que não segue esse caminho. Ficarei eu frustrada? Ou apenas com vergonha das pessoas? Ou até pena? Que fase, mundo, que fase.
Termino esse texto whiskisitíssimo com um texto belérrimo do Nick Cave. Li essa carta no fabuloso livro “Cartas extraordinárias”. (recomendo MUITO, cheio de pérolas!) Essa carta certamente mudou alguns cursos da minha vida.



Quando você anunciou que lançaria o SadSexySillySongs, eu pulei de alegria (literalmente). Aí meu namorado, que já sabe da minha longínqua obsessão por você, me perguntou: “e se você não gostar do novo álbum?”. Eu respondi que ia gostar mesmo se não gostasse, porque saberia que vc faria exatamente oq quer e é isso que mais gosto em você e no seu trabalho. Esse texto resumiu exatamente o que me faz ser sua fã. ❤️🔥 E é tão mais gostoso ser fã assim.
eu espero quantos meses for para seus esporádicos textos aparecerem aqui, que deleite!